TrIlha Inca - DIárIo de Bordo Para quem tem vontade de fazer a Trilha Inca, mas não sabe muito bem como é, aqui estão nossas experiências, sensações e acima de tudo, nosso conselho: façam. 1º dia: 11/09/2007 
Finalmente o grande dia chegou. A expectativa para a trilha era enorme, por isso a emoção tomou conta de nós. Acordamos bem cedo e saímos do hotel em direção ao km 82 da linha férrea que liga Cusco a Águas Calientes. A viagem parecia interminável. Chegamos. Era hora de juntar tudo, mochilas, águas, saco de dormir, bastão de caminhada etc, etc, etc. Não sabíamos direito o que fazer, o que levar, mas rapidamente ajustamos tudo e começamos. A ponte que atravessa o rio Urubamba é o início de tudo.
Logo no início da trilha, nosso guia Bruno fez uma parada para explicar o que esta trilha significa e principalmente nos dar força para não desistirmos, pois nosso objetivo era Machu Picchu e que com certeza iríamos atingi-lo. Pediu também que pegássemos uma pedra, a mais bonita que achássemos, para fazer uma oferenda quando chegarmos a Machu Picchu. A caminhada foi tranqüila, nada de grandes desafios. A primeira parada foi em Llaqtapata, uma das muitas ruínas que visitamos durante o caminho.
A maior curiosidade era em relação às refeições. Sempre que perguntávamos aos agentes de viagem, a resposta era sempre a mesma: “não se preocupem, os carregadores cuidam de tudo”. Tudo o quê? Vou ficar 4 dias andando, no meio do nada...e se eu passar fome, sede...Êta neura de bicho da cidade grande!!! Mas, fazer o quê? Vamos confiar. Foi uma das mais espetaculares surpresas que tivemos. Nosso primeiro almoço foi simplesmente formidável. Chegamos ao local do almoço, a barraca restaurante e a barraca cozinha armadas. Três bacias com água e com sabonete para lavarmos as mãos e ainda três toalhas de mão!! Como aquilo era possível? Para se ter uma noção veja o cardápio deste almoço:
Entrada: Quacamole Primeiro prato: Canja de galinha acompanhada de pão de alho Segundo prato: Arroz, batata frita, truta à milanesa frita (com direito à decoração de prato). Após 12 km de caminhada, chegamos a Wayllabamba, nosso primeiro acampamento. As barracas-dormitórios já montadas e a chuva ameaçando cair. Fomos chamados para um lanchinho da tarde, com direito a pipoca e tudo mais (café, chá, chocolate quente, bolacha com geléia). Ficamos conversando esperando a chuva passar. Por volta das 19:30, nosso jantar (também em grande estilo, sopa, prato principal e sobremesa). Após o jantar fomos dormir. O pior dia estava chegando. O segundo dia é o mais temível de todos. 2º dia: 12/09/2007 Acordamos bem cedo (05:00 h) com o chamado de um dos carregadores gritando “Amigo, matesito!”. E ao abrir a barraca, um copo com água quente e folhas de coca nos dando bom dia. Tomamos nosso café da manhã (não preciso nem dizer que também em grande estilo, com direito a panquecas e tudo mais) e partimos para o tão temível dia. O caminho até o pico máximo (Warmiwañusca – 4200 m de altitude) é óbvio, é todo em subida. Praticamente impossível de fazer. Cada passo é considerado uma vitória. Realmente muito difícil. Mas, devagarzinho, um passinho aqui, outro ali, dez minutos de descanso, fomos vencendo a montanha. O efeito da altitude realmente pesa.
Passamos por um bosque em mata fechada, com corredeiras muito bonitas que nos faziam esquecer um pouco o cansaço que sentíamos. Mas, sempre que pensávamos que aquilo era humanamente impossível de se fazer, passava um carregador, com o triplo da sua velocidade e quíntuplo de peso nas costas. Isso dava um ânimo e uma coragem que ainda não sabemos se era esse o incentivo que nos fazia subir ou se eram as folhas e mais folhas de coca que nos dava esse ânimo. Acho que ambos. Após muitas horas (já não me lembro mais) e poucos km depois, finalmente chegamos ao pico Warmiwañusca, a 4200 m de altitude.
Todos que chegavam ao pico tinham a mesma expressão: um rosto mostrando desespero e ao mesmo tempo satisfação total. Só fazendo a trilha para conseguir entender. Mas ainda não era o fim. Para chegar ao acampamento precisaríamos descer. Mas tudo bem, descer todo santo ajuda, né? Nem sempre. Um degrau mais alto que o outro e totalmente irregular. Não sabia se doía mais o joelho ou o pescoço de tanto olhar para o chão. Mas após 3 horas de descida, chegamos ao nosso segundo acampamento: Pakaymayu.
Uma rápida chuva caiu e assim que passou nos deixou um dos céus mais lindos que já vimos. Uma infinidade de estrelas e até foi possível ver a via Láctea. No céu dá pra ver também uma grossa linha sem estrelas, que os incas acreditavam ser o reflexo do rio Urubamba que circunda a região. Sinceramente, parece mesmo. 3º dia: 13/09/2007 Acordamos bem cedo e da mesma forma que o dia anterior. O pior dia já passara. Mas a subida que vinha pela frente assustava. Este dia foi muito bonito. Passamos por várias ruínas e paisagens exuberantes. A primeira ruína foi a Runkuraqay.

Caminhamos mais um pouco e paramos em outra ruína: Sayacmarca. Depois descemos um pouco e passamos pela ruína Qonchamarca. 
Mais adiante outra ruína: Puyupatamarca, com suas incríveis fontes de água. 
Pelo caminho mais ruínas e paisagens maravilhosas. Avistamos Yunkapata, com seus fantásticos terraços agrícolas. Surpreendente. 
Após aproximadamente 17 km chegamos ao nosso acampamento em Wiñaywayna, que estava bem próxima da ruína de mesmo nome. Eu entrei na barraca e não consegui me levantar. O Renato foi ver a ruína. Ficou extasiado. 
Esta noite foi a mais emocionante, pois foi nossa despedida dos nossos amigos carregadores (eles não chegam conosco até Machu Picchu). Agradecemos e temos a certeza que se não fosse a dedicação deles, esta viagem não teria tido o conforto que tivemos. 
4º dia: 14/09/2007 O dia mais esperado de todos. Acordamos mais cedo: 04:00. Era hora de pegarmos o último trecho da trilha até Machu Picchu. Já avistávamos a montanha Machu Picchu e vimos o nascer do sol por trás dela.

Seguimos a trilha, muitas pessoas apressadas, a ansiedade tomava conta de todos. Seguimos nosso ritmo. A escada íngreme, com cerca de 90º de inclinação era um aviso de que estávamos chegando. 
E finalmente a Porta do Sol (Intipunku) e Machu Picchu ao fundo. Um momento mágico. Uma sensação única, onde palavras não expressam nem um terço do que sentimos. Mas ainda não chegamos. É preciso descer uma trilha para chegar a Machu Picchu. A cada passo, a emoção aumentava. Paramos na ruína que era o ponto de controle para entrar em Machu Picchu e ali oferecemos nossa pedra que pegamos no nosso primeiro dia de trilha.
Descemos mais um pouco e lá está ela, toda poderosa e cheia de mistérios. Cada um enxerga o que quer ver. Uns apenas vêem um monte de pedra, outros vêem uma cidade dourada. Para nós, ela é toda dourada, cheia de encantos, cheia de ensinamentos a nos passar e um dos maiores mistérios da história da humanidade. 
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